História

Ao tentar escrever a história de um Grupo Escoteiro com mais de 50 anos de atividade é complicado, porque sempre esqueceremos algum fato marcante, algum chefe inesquecível, alguma aventura daquele escoteiro de 1900 e lá vai bolinha ou tantas outras lembranças que não podem faltar na História do Grupo.
Com isso em mente, vamos tentar contar a história do atual Grupo Escoteiro Caio Martins que na sua fundação era conhecido por Grupo Escoteiro Presidente Kennedy, de algumas formas diferentes:

História contada através de um documento “cheio de estória”

História contada através de fotos

 

Histórias contadas através das pessoas que fazem ou fizeram parte dessa história:

2017 - Tia Zê e Allan

Data: 13/10/2017
Personagens: Tia Zê e Allan
Quem conta esta história: Chefe Bruninho
A história: “Essa história eu já devo ter escutado da Tia Zê, pelo menos umas 4 vezes, e todas as vezes que ela me conta meus olhos se enchem de lágrimas, inclusive agora que estou escrevendo.
Ela começa quando uma mãe veio ao grupo para ver se poderia colocar seu filho para fazer as atividades na alcatéia. Lógico que Tia Zê não hesitou em dizer que sim, mas essa mãe disse que seu filho era um menino muito especial, ele era autista e não se comunicava com ninguém. Tia Zê no alto de seus 2 metros de sabedoria disse: Pode trazer, aqui ele será bem recebido e será tratado igual a todos.
A mãe então levou seu seu filho e o apresentou: Esse é o Allan, e ele está animado.
Tia Zê tentou falar com ele, mas não obteve nenhum resultado, mas não se apertou, pegou o menino pelo braço e foi apresentar a sua seção.
Passaram-se vários meses e aquele menino continua no seu mundo. Não falavam com ninguém, só observava. Não incomodava ninguém. Tia Zê sempre tentava colocar ele para fazer as atividades, tentava conversar com ele mas não surtia efeito, mesmo assim ela acreditava em uma coisa chamada: A Força do Coletivo, e nunca desistia dele.
Outros meses se passaram e as alcatéias estavam preparando o seu tradicional acantonamento, e lógico o Allan participaria do seu primeiro acampamento no grupo.
Ao chegar na escola onde seria o acantonamento, algumas fotos das atividades do ano estavam pregadas na parede, enquanto todos arrumavam suas coisas o Allan observava as fotos. De repente ele chama a Tia Zê com as mãos para ir perto dele. Ao chegar ele aponta para uma foto e diz: “É nós aqui né”. Tia Zê não acreditando no que estava acontecendo também encheu os olhos de lágrimas e respondeu: “Sim, somos nós”.
Tia Zê pediu para chamarem a mãe do Allan para mostrar o que estava acontecendo, ao chegar e ver aquele menino que com seus quase 10 anos nunca tinha falado uma sequer palavra e ainda conversava com a Tia Zê, sobre suas atividades na alcatéia, sua mãe também não se conteve e começou a chorar”.
Allan hoje tem 26 anos de idade, continua suas atividades no grupo, sendo Lobinho, Escoteiro e agora Sênior. Ahhh e continua falando muito.

1977 - Fraldas no Meu Varal

Data: 02/04/2020
Personagens: Marcos Wilson, Chefe Celso, Tia Zê, Ronaldo Macuco Mosca, Chefe Cunha,
Quem conta esta história: Chefe Jurandy Pereira Machado
A história: Essa história é dedicada especialmente ao amigo, irmão e sempre Chefe Escoteiro Marcos Wilson e ao insuperável e insubstituível Chefe Celso, esse último normalmente personagem de minhas histórias até então não escritas. E não poderia deixar de homenagear também a sua inseparável primeira dama, escudeira e nossa grande mãe, Tia Zê. Ela é prova viva da palavra bíblica que diz que “a mulher sábia edifica o lar”, considerando lar também o nosso Grupo Escoteiro Caio Martins – 6º DF.
Bem, o ano foi em abril de 1977, época em que fui sênior. Era Acampamento de Grupo na Semana Santa na Chácara Manacá do Colégio Marista, do Grupo Marista.
O ambiente era belíssimo e nossa Tropa Sênior ficou posicionada exatamente em frente a um pequeno lago. Era verdadeiramente um paraíso.
Nesse acampamento, fizemos logo os nossos deveres de casa (montar barraca, cozinha, pioneirias, outros). Daí era só relaxar e “curtir” o evento sem muita cobrança.
Nosso Chefe de Seção foi o saudoso Ronaldo Macuco Mosca. Pele clara, cabelo liso, meio ruivo e curto, bigode, 1,65m de altura, idade entre 45 e 50 anos, usava óculos, paulistano e de descendência italiana. Parecia um pouco com o ator britânico Gary Oldman que interpretou o Comissário Gordon no filme do Batman “Cavaleiro das Trevas”. Chefe muito exigente, também pudera, era militar (segundo sargento do exército), mas muito irmão, amigo, humano e competente. Era exemplo de ética, disciplina, cultura e elegância (ele comentava muito que um escoteiro teria que ter “garbo”), e sua esperança era de que seguíssemos o seu exemplo. Lembro-me bem de que, em acampamentos onde no campo imperava lama ou poeira, Ronaldo aparecia à nossa frente sempre com a roupa impecável, sem amaçados, com vinco na calça e o sapato brilhando. Ele se dedicava de corpo e alma ao escotismo. Amava o que fazia. Era perfeccionista. De Chapelão, era o próprio Baden-Powell. Também cumpria as funções de nosso técnico de futebol de salão (hoje futsal) aos domingos pela manhã, o que nos ajudou, e muito, a termos mais espírito de equipe. Trago comigo uma frase de cobrança de nossas tarefas de casa que costumava usar quando não as cumpríamos: “Explica, mas não justifica”. Esse era o Ronaldo. Devo muito da minha vida adulta e profissional a ele.
Retornando ao acampamento, nossa tropa estava literalmente à toa, exceto quando Chefe Celso aparecia de surpresa para nos visitar e fazer suas tradicionais inspeções no local, o que era terrível! Devemos lembrar que Chefe Celso também foi militar (do exército).
Bem, de frente para aquele belo lago e livres de quaisquer incumbências, exceto a cozinha e as inspeções do Chefe Celso, partimos para pôr em prática uma ideia que nunca havíamos feito até então. Embora fôssemos escoteiros básicos, decidimos construir uma “jangada”.
Munidos de machado e corda, fomos em busca de um belo tronco de árvore. Do outro lado do nosso campo e próximo ao lago, havia um pequeno bosque de eucaliptos. Logo encontramos uma árvore morta caída. Não perdemos tempo. Fizemos as devidas medições e, sem muita engenharia, acordamos em cortá-la em quatro partes. Como a madeira era meio dura ou o machado meio cego, decidimos formar uma fila indiana a certa distância para cortá-la e tudo virou um jogo. Machado depositado ao lado do tronco, cada membro da fila corria até a árvore e aplicava três golpes de machado nela, retornando ao final da fila. Os demais consequentemente faziam o mesmo procedimento. Horas se passaram, encontrávamo-nos exaustos e só havíamos cortado duas toras. Eis que, de repente, passando ao largo, surgiu o Chefe Cunha (não me recordo de seu nome completo), Assistente da Tropa Escoteira, encaminhando-se para o campo dos escoteiros. Cidadão tranquilo e de poucas palavras, paranaense dos seus, no máximo, 40 anos, cor clara, 1,70m, cabelo meio rareado, usava óculos. Não possuía porte avantajado, mas também era militar (cabo do exército) e forte, embora não aparentasse (antes do serviço militar, como muitas pessoas, trabalhou na “roça” para auxiliar sua família). Ao ouvir nosso pedido de ajuda, não nos negou a colaboração. Bastou, então, o esforço do Cunha e as quatro toras estavam cortadas. A felicidade foi geral. Com a corda, fizemos nossa jangada e a levamos para as margens do pequeno lago. Dali, saímos correndo no sentido de nossas barracas, colocamos nossos calções de banho e, em um piscar de olhos, estávamos de volta à embarcação.
Com todo mundo reunido à beira do lago, passamos a tentar ver se a jangada flutuava devido à pesada madeira. Havia um pequeno tronco que sobrou da árvore cortada, o que resolvemos atirá-lo na água. Para nossa tristeza, ele não flutuou. Mas nós tínhamos o Pedro Paulo (Pedro Paulo Pereira), membro da patrulha Tamoio, cujo monitor era o Marinho (Roberto Marinho Ribeiro). Pepê, como era conhecido, tinha estatura baixa, 1,55m, moreno claro, cabelos lisos e castanhos escuros bem abundantes que chegavam a cair na testa, tinha uma boca que era de difícil domínio, mas era esperto e possuía atitude. Ele, de imediato, mergulhou e verificou que o tronco havia ficado preso no lodo, no fundo do lago. Bastou uma pequena mexida e a madeira flutuou. A alegria da “galera” foi geral. Daí, foi só jogar a jangada n’água e vê-la flutuar também.
Todo mundo, então, resolveu subir ao mesmo tempo e a jangada afundou. Imaginem que bagunça foi! Então, partimos para ver sua capacidade e verificamos que apenas comportava duas pessoas por vez. Que frustração! Antes, porém, o Helder (Helder Shainy Sousa Silva), monitor da minha patrulha, a Guarani, eu era o submonitor, desapareceu mundo afora e, quando retornou, trazia consigo um remo. Na verdade, era uma grande colher de pau utilizada na fabricação de pães em um forno existente no prédio em que acantonavam os lobinhos. Em um mesmo instante, alguém, que não me recordo, produziu artesanalmente um outro remo. Tínhamos, então, nossos motores para propulsão da jangada.
Sorteamos, então, a primeira dupla que iria inaugurar a engenhoca. O restante formaria uma fila indiana cuja ordem foi decidida também por sorteio. A regra era simples: “uma volta ao redor do lago e para o final da fila”. A farra foi total. Nunca, na minha vida, havia realizado algo semelhante, e olha que nem nadar direito eu sabia. A confiança estava na jangada, por não afundar.
A diversão no acampamento estava garantida. Era manhã e tarde na jangada. Só interrompíamos para almoçar, lavar pratos, talheres e panelas, e descansar do almoço. O interessante foi que a jangada era tão pesada que não conseguíamos retirá-la do lago. Com isso, a madeira foi se encharcando d’água, o que a tornava mais pesada ainda. Resultado: no decorrer do acampamento, que à época durava quatro dias, a jangada foi afundando. Quem a avistava de longe, só via duas pessoas remando sobre a água. Era coisa de doido. Não se via a jangada por estar totalmente submersa, que logo passou a ser apelidada de “submarino a remo”. E quem de nós estava preocupado com isso?
O acampamento até então, para nós, seniores, estava sendo um dos melhores da história. Mas faltava ainda o ponto alto, a “cereja do bolo”, o Fogo de Conselho. Durante nossa diversão, remando, pensávamos em criar uma canção para apresentar no evento. Nisso surgiu uma música que ficou na história de nosso Grupo e que consagrou um coral que criamos na ocasião cujos integrantes eram baseados em personagens de um programa humorístico da televisão, Chico City, apresentado pelo humorista Chico Anysio (Francisco Anysio). A música era uma paródia da canção “Marcas do Que se Foi” do conjunto brasileiro “Os Incríveis”, sucesso na época. E aí é que viria a participação na história do Chefe Marcos Wilson, pelo fato de estar prestes a ser pai, além de novamente o nosso ídolo, Chefe Celso, pelas inspeções cotidianas e de surpresa em nosso campo. Sua letra era assim:
Este ano, quero fraldas no meu varal
Também quero uma barraca prá não dormir mal
Seu Celso passa, reclamando da cozinha e das barracas sem parar
E o Ronaldo o tempo todo a desculpar:
Falta material, barracas e sisal
Desse jeito assim não dá nunca mais para acampar

Iêe!

Falta material, barracas e sisal
Desse jeito assim não dá nunca mais para acampar

Enquanto cantávamos, o Chefe Marcos Wilson, caminhando ao redor da fogueira, erguia o braço e mostrava seus bíceps. Era uma forma de dizer que era o “macho alfa” da canção (um dos homenageados). A cena era hilariante e nada daquilo havia sido combinado. Quanto ao Chefe Celso, foi a primeira vez que nos ousamos em tirar brincadeira com ele, mas lembro-me de que até ele relaxou um pouco, esboçando sorriso e “curtindo” o momento. Afinal de contas era Fogo de Conselho de um acampamento geral do nosso Grupo. Quer mais?

Foi o ponto mais importante do acampamento, motivo de lembrança e reprise do feito por anos a fio. O acampamento da chácara Manacá entrou para a história do Grupo, e Chefe Celso passou a ser a pessoa mais cultuada pela Sênior e por outras seções também por meio de músicas e por outras formas de expressão. “Marcas do que se foi.”

1975 - A Saga do ARGO

Data: 03/04/2020
Personagens: Helder (monitor); Helton; Marcelo Mendonça; Roberto Marinho; Evandro Perotto; Jurandy Pereira Machado
Quem conta esta história: Chefe Jurandy Pereira Machado
A história:
O ano era 1975, período de férias escolares de julho. O ponto de encontro era a rodoviária interestadual de Brasília, localizada no centro geográfico do Plano Piloto. O destino, o município de Goiatuba (GO). O evento era o “ARGO – Acampamento Regional de Goiás”, que contaria com escoteiros do Distrito Federal, Minas Gerais e Goiás.
Eu fazia parte de uma patrulha mista, a Lobo, composta por irmãos escoteiros de outras patrulhas de nossa tropa, que era formada apenas por meninos. A equipe era composta por Helder Shany (monitor), Helton Shany, seu irmão, Marcelo Mendonça, Roberto Marinho, Evandro Perotto, filho do Chefe Celso e Tia Zê, e eu, é claro. Todos nós nos apresentamos com nossas mochilas, mas não o Marinho, com sua bela “mala” de viagem. Ele relatou que não conseguiu convencer sua mãe de que “escoteiro usa mochila para acampar”. Precavida e preocupada como era, assim como outras mães, havia comprado enxoval novo para o conforto do filho. Nossa média de idade era de 13 anos, e o Marinho já se destacava pelo seu porte e altura. Na verdade, parecia um pioneiro junto da gente. Mas o que tinha de tamanho, tinha de engraçado.
Veio, então, a ordem do Chefe Celso, na época Chefe do Grupo, para o embarque. No pátio da rodoviária e ao lado do ônibus, disposta em fila indiana, estava nossa bagagem. Era mochila, mochila, mochila, mala, mochila, mochila, mochila e por aí foi. Marinho embarcou preocupado com que Chefe Celso não colocasse sua bagagem no porta-malas do ônibus. Despedidas e acenos pelas janelas, lá fomos nós, felizes, cantando, com destino incialmente a Goiânia.
Na chegada, cada um logo correu atrás de sua mochila, mas o Marinho já tinha dado duas voltas ao redor do ônibus e nada de mala. Como ele temia, Chefe Celso havia esquecido de embarcá-la (e nunca mais a encontrou). E lembram do que disse o Marinho à sua mãe? “Escoteiro usa mochila para acampar”. É bem possível que Chefe Celso tenha pensado da mesma forma. Marinho entrou em pânico e desejou voltar a Brasília. Chefe Inácio Ferreira Dantas, nosso Chefe de Seção, o proibiu, combinando que cada um de nós cederia uma peça de vestuário para ele. Seguimos, então, viagem para frente. Destino Goiatuba e o “ARGO”.
Chefe Inácio, juntamente com o Chefe Jaire de Vasconcelos – o Tora Grande (o mesmo que deu o nome ao galpão do Campo Escola dos Escoteiros – UEB-DF) foram os fundadores do GE José de Anchieta – 11ºDF. Posteriormente ao movimento escoteiro, Chefe Inácio foi descoberto pela apresentadora de programa de televisão Xuxa Meneguel, realizando pinturas de máscaras em rostos de crianças, se não me engano, em uma praça no Rio de Janeiro. O convidou, então, a participar de seus programas infantis para fazer a mesma coisa. Sua fama foi tanta que chegaram a ser produzidos e vendidos no comércio brinquedos com o nome artístico de “Tinácio”. Eu mesmo cheguei a ver um em determinada ocasião, o que me deixou muito contente, pois Inácio, além de ser um artista nato, era muito batalhador.
O ônibus fez a gentileza de nos deixar no campo. Assim que chegamos, identificamos onde ficaríamos e logo montamos nossas barracas. O terreno era maravilhoso. Devia ter uns 45° de inclinação, sem exagero. Chefe Inácio logo foi designado Chefe do nosso subcampo (Itumbiara). Ainda me recordo do grito de guerra: “Itumbiara, Itumbiara, subcampo da união. Unidos venceremos qualquer competição”. Nossas barracas eram “show de bola”. Haviam sido doadas pelo Exército. Lembro-me bem que eram da época de quando nasci (1962), o que dá para imaginar o estado delas. Você unia dois pedaços de lona pela cumieira, que ficava no topo, por meio de botões. Chamávamos “casar os botões”. Eram da cor verde-oliva e conhecidas como “duas praças” porque comportavam dois soldados, sendo de estilo canadense. O cheiro de mofo que exalavam já era uma tradição. Com um pregador de roupas preso no nariz, ninguém sentia nada. Não possuíam forro, eram abertas na base. Utilizávamos metade de uma barraca mais velha ainda para servir de forro, e o interessante era que o ar corria solto embaixo dela. E, acompanhando o vento, todo tipo de insetos.
Na distribuição das barracas, Marinho dividiu uma comigo. Como disse, a inclinação do terreno era tal que alguns de nós amanheciam com metade do corpo para fora da barraca, seguros apenas por um espeque. Devido ao drama do Marinho de ficar sem nada para usar durante o evento, Chefe Inácio cedeu a ele um saco de dormir. No meu caso, meu pai havia conseguido um malote de correspondência, de lona, que, ao vestir, só cobria dos pés à barriga. E como fazia frio ali. Então era eu sem conseguir dormir direito devido ao frio e Marinho roncando em sono profundo em seu confortável saco de dormir. Certa ocasião, acordei de madrugada sentindo algo estranho fazendo cócegas sobre minha boca. Passei a mão e logo vi que fazia parte de um caminho de formigas saúva que passava dentro da barraca. O abrigo era um conforto total.
Outra noite, acordamos assustados por conta de gritos de socorro. Era um incêndio em uma barraca da patrulha à nossa esquerda. Devido ao frio, um dos meninos resolveu dormir com uma vela acesa para aquecer o ambiente. A vela queimou, passando o fogo para o capim e dali para a barraca. Prestamos assistência e conseguimos debelar o fogo. O interessante foi que, na hora da bandeira na manhã seguinte, um dos membros daquela patrulha apareceu com a parte de trás de seu lenço pela metade, parecendo uma meia lua, sequela do incêndio.
Próximo ao nosso campo, numa baixada, havia umas colmeias de abelha. Elas não costumavam nos incomodar, até que o Chefe Inácio resolveu botar fogo em estrume de vaca para espantá-las. Ocorreu que o cheiro do estrume queimado espantou primeiro a gente, depois que foram as abelhas. Foi realmente uma ideia brilhante aquela.
Havia dias de excursões para outras cidades, e isso ocorria em forma de rodízio, envolvendo todos os subcampos. O interessante era que, quando chegava a vez de nosso subcampo, tinha sempre um caminhão à nossa espera para o nosso transporte. O primeiro caminhão foi de carroceria de madeira. Já os demais, caçambas. O interessante era que, para os outros subcampos, sempre apareciam ônibus de viagem. Para conter o frio que era intenso e que muitas vezes vinha acompanhado de fina garoa, colocavam uma lona sobre a gente. Com o tempo, as caçambas passaram a ser apelidadas de “geladeiras ambulantes”.
Certa ocasião, fomos conhecer Caldas Novas. O medo do frio era tanto, que ninguém ousou colocar os pés na piscina quando chegamos, até que descobrimos que a água era quente. Daí ninguém mais ousou sair d’água. Quanto ao Chefe Inácio, tivemos que carregá-lo e jogá-lo na água porque não acreditava que estivesse quente. Depois que eu descobri a sauna, com cachoeira de água a 40°C, não quis saber de mais nada.
O problema viria quando do regresso ao acampamento. A noite estava chegando e com ela o frio que se intensificava. Em dado momento, um menino teve hipotermia na caçamba do caminhão. Chefe Inácio o colocou na cabine, agasalhando-o. Todavia, ao chegarmos na cidade de Morrinhos (GO), ele disse que não mais seguiríamos viagem naquelas condições. Celular não existia e tampouco orelhão (telefone público) por perto, e o recado foi dado mesmo ao motorista do caminhão de que ficaríamos aguardando ali o socorro.
Já havia chegado a noite. Abrigamo-nos na rodoviária local, que mais parecia uma grande parada de ônibus, toda aberta e com o vento correndo solto. Agasalhamo-nos com jornal, sentados em bancos gelados de praça. Mais de duas horas se passaram até que uma caravana de veículos nos acolheu. Que passeio maravilhoso! Eu o chamaria hoje de “Entrando numa Fria”.
Recordo-me também de duas cenas interessantes. Uma quando tomávamos banho em um córrego próximo ao nosso subcampo, em que, enquanto brincávamos, o Marinho lavava a única peça sobressalente de roupa, além do uniforme, para uso no dia seguinte. E ficávamos tirando gozação com ele. A outra, quando de um jantar. Eu estava na fila do suco quando me deparei com a seguinte situação: um soldado do Exército gritava aos seus companheiros se alguém havia mexido o suco existente em um panelão de cozinha. O exército era quem dava apoio logístico ao evento. Antes mesmo que houvesse manifestação, deliberadamente arregaçou a manga de sua camisa e passou a mexer o suco com mão e braço panela adentro. E assistindo toda aquela cena, adivinhem quem seria o próximo a ser servido? Moral da história: “cavalo dado não se olham os dentes”.
Lembro-me bem, finalmente, de que o maior momento desse grande e inesquecível evento foi quando retornamos para casa e até nunca mais! Duro é que o tempo passa, mas a memória fica.


1973 - Alvorada Festiva em Luziânia GO

Data: 02/04/2020
Personagens: Chefe Jesus e a Tropa Escoteira
Quem conta esta história: Carlos Eduardo de Castro Serra (Cadu)
A história: Acampamento da Tropa de Escoteiros em Luziânia GO, julho 1973, próximo de igreja e lagoa, bem antes do Estatuto da Criança e do Adolescente estar em vigor, foi de apoteose: nas três alvoradas o Coronel Jesus, nosso Fundador e Diretor Presidente, acordava o campo acionando uma sirene movida a manivela.
Quando notava que o pessoal da barraca estava sem disposição, devido ao frio e ventania, com muita umidade, pela proximidade da lagoa, ele introduzia o aparelho na barraca e acionava com mais velocidade, isso aumentava o volume e os “acordes”, despertavam até urso hibernando. Depois teve uma ginástica, banho, então fazíamos o desjejum. Era a rotina daquele tempo.
O Chefe da Seção era o Chefe Nunes (português muito falante, bom ouvinte e divertido).
Esta sirene fez muito sucesso por um bom tempo, não sei do seu destino.

 

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